Unidas por uma causa: projeto realiza ações de redesenho de aréola

“Eu percebi a resistência dessas pessoas, um certo medo dessas mulheres. Elas não têm coragem de mostrar a mama, elas têm medo da reação que a outra pessoa vai ter, porque elas se sentem mutiladas, é um efeito psicológico muito grande. Por mais que a gente entenda que elas já venceram a doença e que elas estão bem e curadas, no íntimo delas, ainda existe uma dor, que é aquela ausência da mama como era antes.”

Márcia Brasil (36) é empresária, especialista em micropigmentação estética e paramédica e idealizadora da ONG Amigas do Peito, que realiza a micropigmentação para redesenhar a aréola de mulheres que passaram pela mastectomia – retirada parcial ou total da mama, necessária em certos casos de câncer. O projeto surgiu “como um sonho”, segundo Márcia, quando ela se especializou no procedimento e percebeu que muitas pessoas precisavam desta ajuda.

De acordo com dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca), no Brasil, a estimativa é de 59.700 novos casos de câncer de mama para cada ano do biênio 2018-2019. Isso representa uma taxa de incidência de 51,29 casos por 100 mil mulheres. Só no Rio Grande do Sul, são estimados 5.110 novos casos. Este é o tipo de câncer mais frequente nas mulheres das regiões Sul (73,07/100 mil), Sudeste (69,50/100 mil), Centro-Oeste (51,96/100 mil) e Nordeste (40,36/100 mil), exceto na região Norte, onde o câncer do colo do útero ocupa a primeira posição, segundo informações da ação Controle do Câncer de Mama do Inca.

A partir dessa percepção, Márcia começou a divulgar o atendimento voluntário. “Foi um trabalho de formiguinha”, afirma, ao ressaltar que poucos médicos indicam para estas mulheres o redesenho da aréola, assim como muitos desconhecem pessoas que realizam este trabalho.

Em Cachoeirinha, não há uma Liga Feminina Regional de Combate ao Câncer, como existe em Canoas, Gravataí, Esteio e em outras 83 cidades gaúchas. O Amigas do Peito tenta juntar forças para compensar essa ausência e gerar uma conscientização para que algo seja feito.

NUNCA SE ESTÁ SOZINHA

Para se especializar mais na micropigmentação, Márcia realizou um curso em São Paulo, onde conheceu cinco gaúchas interessadas no assunto – Stefânia Pich, Gisele Rabello, Rose Battistel, Verônica Vilar e Cristiane Carpin. Como ela explica: “Neste dia, eu contei para elas que eu tinha um sonho de uma ação de mutirão, na qual mais profissionais pudessem executar junto comigo os atendimentos”. Nascia, naquele momento, a ideia de um projeto que, em 2018, se tornaria uma ONG. Mas até chegar neste ponto, Márcia e as outras integrantes tiveram que se organizar. Afinal, onde realizar o procedimento? Como conseguir os materiais necessários? Como cadastrar as participantes?

Através de conversas com conhecidos e com o apoio do Núcleo das Mulheres Empreendedoras do Centro das Indústrias de Cachoeirinha (Cic/RS), as seis amigas conheceram o Comitê Viva Mulher, ligado à Prefeitura do município. Em agosto de 2017, Márcia apresentou sua ideia a este grupo. “Neste dia, na hora, elas abraçaram o projeto, acharam fantástico e dali já saiu o lugar, o patrocínio, os materiais, e eu fiquei muito emocionada”, completa.

Na reunião, também estava presente o Corpo de Bombeiros de Cachoeirinha, apresentando um projeto para o Outubro Rosa. Márcia lembra o momento com felicidade: “Eu disse ‘meu deus’, era a hora certa e o lugar certo com as pessoas certas”. Para a surpresa dela, dias depois da apresentação, o representante do Corpo de Bombeiros a ligou e disse que gostaria de criar algum material que os bombeiros pudessem vender e reverter o valor para a iniciativa de micropigmentação.

Na passagem de 2017 para 2018, o Corpo de Bombeiros anunciou que todo o valor arrecadado com as camisetas do Outubro Rosa – o material que venderam – iria para o projeto das seis amigas. “Eu digo que o projeto só aconteceu pelo apoio de muitos amigos. E o nome ‘Amigas do Peito’ veio das amigas que eu conheci no curso”, destaca Márcia ao ligar o nome ao grupo de parceiras e ao trabalho por elas realizado. Uma parte do valor recebido foi doada para comprar um equipamento de aferição do mamógrafo de Cachoeirinha, uma vez que a calibragem é necessária para que haja precisão no diagnóstico. Para Márcia, fora as ações de redesenho, essa foi a primeira ajuda importante que deram ao município.

Equipe do Amigas do Peito e apoiadores. (Foto: Acervo do Amigas do Peito)

Durante uma palestra que a especialista deu sobre o projeto, conheceu a psicóloga Claudilene Basei e a convidou para participar do Amigas do Peito. Desse modo, além do procedimento externo, o projeto também começaria a ter um entendimento interno das participantes: como elas se sentiam passando por aquela situação, tendo em vista tudo que já haviam enfrentado? No entanto, mesmo com voluntários e com um local para os atendimentos, faltavam mulheres que aceitassem participar. “Eu digo que a gente tem mão de obra qualificada, a gente tem recursos para fazer isso, mas faltam as pessoas para serem beneficiadas”, complementa Márcia.

A advogada Carla Dick também quis contribuir com o projeto. A orientação jurídica tanto era necessária para auxiliar as mulheres vitoriosas – como são chamadas as que venceram o câncer de mama – a entender seus direitos quanto para que a iniciativa se estruturasse como uma ONG em 2018.

É MAIS DIFÍCIL DO QUE PARECE

Quando os planos foram colocados no papel, surgiu o desafio de conseguir listar as mulheres que poderiam participar do procedimento e que, principalmente, tivessem vontade de realizá-lo. Em outubro de 2017, começou a organização para a primeira ação do projeto Amigas do Peito. A divulgação foi expressiva. No total, conseguiram que 16 mulheres se cadastrassem. No entanto, o Amigas do Peito só tinha capacidade para atender 10 num primeiro momento. Das 10, duas não foram. “Conseguimos um local, criamos um ambiente bem bacana, porque elas já tinham a resistência de se mostrar. Se o ambiente lembrasse uma sala cirúrgica, seria pior ainda, então a gente tinha que quebrar esse clima”, esclarece Márcia.

Laudiceia Lopes (52) enfrentou o câncer de mama aos 33 e aos 48 anos de idade. Durante o redesenho, ela se emocionou e entendeu o procedimento como um “recomeço de vida”. (Foto: Acervo Amigas do Peito)

Laudiceia Lopes (52), professora, conheceu o Amigas do Peito através da irmã, que divulgou a ação de micropigmentação por um grupo no WhatsApp. “Eu fui aberta a fazer, mas não pensando que ia ter um retorno legal, eu fui para melhorar mais um pouco”, explica ela. E complementa: “Tu chega lá e tem mais pessoas com o mesmo problema e que também passaram quase a mesma coisa que tu passou. A dor é uma só, a dor é desesperadora para qualquer mulher”.

Conforme dados da ação Controle do Câncer de Mama do Inca, a incidência do câncer de mama tende a crescer progressivamente a partir dos 40 anos. Na população feminina abaixo desta idade, ocorrem menos complicações com a doença, mas,  a partir dos 60 anos, o cuidado deve ser muito maior. O Inca ainda esclarece que existem vários tipos de câncer de mama, sendo que alguns evoluem de forma rápida e outros, não. Todavia, a maioria dos casos tem bom prognóstico.

O primeiro atendimento do Amigas do Peito teve direito a mesa com café, músico, jornalista e fotógrafo para registrar o antes, o durante e o pós-procedimento daquelas que desejassem aparecer. O benefício foi mútuo, como descreve Márcia: “A gente consegue ver a diferença no semblante delas. Foi fantástico. A gente troca carinho pelo brilho no olho. O que a gente faz é um carinho para elas e é um momento de dizer assim ‘deu, meu ciclo acabou’. Para elas tem esse significado”. O atendimento ocorreu na Clínica Tenuar, dentro do complexo do Cic/RS, na tarde do dia 16 de outubro de 2017.

A segunda ação aconteceu no dia 12 de março de 2018 no Instituto da Face pela manhã. Os próximos atendimentos serão feitos no dia 5 de novembro, mas Márcia ressalta a dificuldade em conseguir cadastros: “Eu acredito que aqui no município a gente tenha muita gente para ser beneficiada, mas ainda sim existe uma resistência”. Quanto à verba, a especialista em micropigmentação afirma que uma parte veio do auxílio do Corpo de Bombeiros e outra, através de patrocínios. O dinheiro recebido é todo voltado à ONG, portanto, as profissionais trabalham de forma voluntária e, quando não conseguem doações de materiais, usam os próprios equipamentos.

QUANDO AFETA A AUTOESTIMA

“Uma renovação de vida, um começo de vida”, declara Laudiceia sobre como se sentiu após o procedimento. Para receber a ajuda, as mulheres que solicitam cadastro passam por um filtro: a psicóloga Claudilene entra em contato para fazer uma avaliação do caso. Isto é necessário porque muitas solicitantes ainda não estão preparadas para o processo. “O que a gente percebeu é tem pessoas que não estão prontas para receber o redesenho, porque elas têm tantos traumas, estão com tanto medo que nem sempre é o melhor momento. Parece ser tão simples para quem não enfrentou a doença, mas para elas é mudar a vida”, confessa Márcia. O contato é mantido mesmo após o processo. “Elas vão ser o testemunho vivo do trabalho da gente. Nós somos as mãos, mas elas vão ser a voz. Vão poder repercutir isso.”

Durante o primeiro atendimento, as mulheres que desejaram foram fotografadas antes, durante e após o procedimento. (Foto: Acervo Amigas do Peito)

Durando em torno de 1h a 1h30, o redesenho é realizado com calma para não prejudicar quem o recebe. Márcia enfatiza que a dor física é inexistente, pois a região onde foi feita a mastectomia tem uma pele mais resistente, mas o efeito psicológico é evidente. No redesenho, é aplicado um pigmento na derme – primeira camada da pele -, criando o efeito dos traços do mamilo. “Quem olhar no espelho vai ter a sensação de que tu tem uma aréola com bico do seio, mas, passando a mão, é só um desenho, como se fosse uma tatuagem.” E ela completa ao afirmar que usam como referência a áreola existente ou, caso tenha ocorrido remoção das duas mamas, as próprias especialistas criam o desenho: “É um trabalho bem delicado, bem especial”.

Destacando a atenção e o cuidado das profissionais, Laudiceia confessa que se comoveu com o momento e sentiu uma melhora na autoestima. “Todas deveriam passar por isso, aliás, a mulher já deveria sair do hospital assim [com a micropigmentação mamária], não deveria de ter o impacto de se ver sem a mama.”


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