Para que não seja preciso contar histórias reais tão cruéis

Tatiane da Silva Santos  foi condenada a 24 anos de prisão pela morte do seu filho caçula. No momento em que Diogo foi torturado e morto pelo próprio pai a mãe,Tatiana, estava trabalhando. O pai foi condenado a 42 anos de prisão e a mãe, mesmo sem estar presente nem  ciente do crime, foi condenada por omissão e tortura. O júri que condenou Tatiane era composto por sete mulheres e representa parte de uma sociedade machista e racista.

Se observarmos  a trajetória de Tatiane, é possível notar uma série de imprudências. Na infância, presenciou um relacionamento abusivo em casa. Aos 17 anos, engravidou e, em seguida, conheceu Amilton, com quem teve seu segundo filho. O relacionamento era estável, até o momento em que o companheiro perdeu o emprego. Ele  passou a utilizar e a vender drogas, nutrir um ciúme doentio por Tatiane e a agredi-la psicológica e fisicamente. Inúmeras vezes Tatiane buscou amparo judicial para manter Amilton longe dela e de seus filhos. Mas as autoridades não atendiam aos apelos dela e o agressor acabava voltando para casa. Sob as ameaças de perder a guarda dos filhos, Tatiane aceitava manter o relacionamento. Para pagar as despesas da casa e sustentar os quatro filhos, ela trabalhava sete dias por semana.

Infelizmente, o caso de Tatiane não é o único em que enxergamos o racismo institucional.

Recentemente,  a jovem Barbara Quirino, de 20 anos, foi condenada a 5 anos e 4 meses de prisão  pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo por participação em um assalto em setembro de 2017. O inusitado é que, na data do assalto, Barbara estava trabalhando como modelo em Guarujá e comprovou isso com fotos  e com o depoimento de pessoas que estavam com ela no evento. Ainda assim, segue presa.

Essas duas histórias poderiam ser roteiro de filme premiado; mas são histórias reais.  Evidentemente, o descaso da justiça não é exclusivo à população negra. O que ocorre é que  existem alguns agravantes, como o alto índice de pobreza, a baixa escolaridade e o pouco acesso à políticas públicas. Todos esses fatores acabam nos fazendo perceber que: os bordões  que existem aos montes continuam sendo ignorados por grande parte da sociedade. “Vidas negras importam”, “Parem de nos matar”, “Racistas não passarão” são vontades justas da população negra no país. Mais de 50% da população se considera negra no Brasil, mas ela  ainda é a menos assistida e a mais sacrificada. Enxergamos em diversos setores resquícios de um processo histórico munido de preconceito.

Até quando teremos que clamar pela liberdade dos nossos? Em algum momento, poderemos focar no progresso (emocional, social e econômico) da população negra ao invés de termos de cuidar para que, diariamente, o povo negro não seja massacrado? Quando começaremos a ensinar  às crianças – tanto brancas quanto negras – as histórias reais de reis e rainhas africanos que lutaram por liberdade? O que falta para podermos apresentar as inúmeras personalidades nacionais que contribuíram e continuam contribuindo para termos uma história baseada em equidade e respeito?  Cada uma dessas perguntas representa um processo grande e demorado. Cabe a cada pessoa fazer sua parte. Tanto sonho quanto luto, diariamente, para que esse momento se construa. Assim como tantos que vieram antes de mim e como muitos que ainda estão por vir.

Kênia Fialho


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