Dos plantões às agendas de salão

“Eu acho que, num salão, a primeira coisa que é necessária para que dê certo é tu ter bastante competência profissional e gostar daquilo que tu faz”, conta Carolina Poletti que, depois de 14 anos trabalhando em hospitais, decidiu mudar de profissão. Formada pelo curso técnico de Enfermagem do Hospital Moinhos de Vento (Porto Alegre), ela trabalhou como técnica instrumentadora neste e em outros lugares, incluindo o Hospital Dom João Becker (Gravataí). Foi nesta unidade que, pela última vez, conviveu diariamente com corredores brancos.

Do cuidado com pacientes passou a cuidar do lado estético, que sempre a atraiu. Somada ao gosto por mexer com cabelo estava a motivação dos que estavam ao seu redor para que Carolina investisse em sua carreira de cabeleireira. “Quando eu trabalhava no hospital, eu já fazia alguns trabalhos sem ter salão e todo mundo falava que eu estava perdendo dinheiro trabalhando como técnica”, relembra. Sua primeira experiência foi no Salão de Beleza Destak (R. Tamôios, 51 – Vila Cachoeirinha), onde trabalhou como auxiliar durante o dia e ficou por cerca de um ano e dois meses. No entanto, por questões financeiras, não era esse seu único emprego. Em Gravataí, ela trabalhava como técnica de enfermagem das 19h à 1h da manhã.

Assim que saiu do Destak, Carolina conheceu Aline Nunes, que era dona da Estética Alícia e estava com uma vaga – ou “cadeira” para cabeleireiro – disponível para locação. Carolina aceitou a proposta e ficou por dois anos neste emprego. Além de Aline, manicure e depiladora, o salão tinha como sócia Miriam Leite, massagista e designer de sobrancelha. O que viria a acontecer abriu espaço para o lado empreendedor de Carolina: depois que Aline saiu por causa da gravidez e por querer montar um negócio em sua casa, ela propôs que Carolina comprasse a parte dela da sociedade. Esse era um novo passo e a cabeleireira teve ajuda de sua mãe, Teresinha Maria Poletti, para realizar a compra.

Após um ano, Miriam decidiu abrir uma escola de cabeleireiro e Carolina ficou como proprietária do salão: surgia em 2015 a Estética Capelli (Av. Gen. Flores da Cunha, 1020, Sala 201 – Vila Veranópolis), nome já utilizado desde o final de 2014. “Todo mundo achou bacana [o investimento], acho que a única que tinha mais medo era a Teresa (risos), mas eu também tinha, porque num emprego tu tem o teu 13º [salário], as tuas férias, o teu plano de saúde, e aqui tu não tem, é diferente”, afirma. Em fevereiro de 2015, deixou o emprego na saúde e passou a dedicar-se totalmente ao novo empreendimento.

Em 2014, Carolina Poletti reformou a Estética Capelli, trazendo mais cores para o lugar.

Desde seus primeiros envolvimentos com a área estética, Carolina focou em sua formação. Além de participar do curso de cabeleireiro profissional do Instituto Embelezze, ela frequentou workshops de produtos e cursos com profissionais especializados em maquiagem e em cabelo. Sua antiga clientela, que já vinha dos outros trabalhos, foi mantida e o “boca a boca” auxiliou na propaganda da Capelli. A preocupação maior estava em pagar as contas. “Com um negócio próprio, tu não tem uma estabilidade. Tu depende do que vai entrando para poder organizar a tua vida financeira: em uma semana está bom, em outra semana está um movimento fraco, e assim tu tem que ir te estabelecendo.”

Apesar desta dificuldade, Carolina ressalta os benefícios de ter saído do estresse do ambiente hospitalar e dos plantões em finais de semana e feriados. “Acho que a melhor parte é ter liberdade de horários. É diferente de tu ter um emprego em que tem que estar todos os dias naquele determinado horário. Isso era o que mais me cansava, principalmente, porque eu fiquei aqui [no salão] e no hospital durante um bom tempo”, expressa.

Os dois lados da moeda que é ter o próprio negócio, a instabilidade e a liberdade, ficam marcados nas expectativas que Carolina, aos 41 anos, tem para o futuro da Capelli: “Espero que não falhe (risos), que continue assim, que a situação econômica seja tranquila. Eu penso em voltar para o hospital para ter uma renda fixa porque o momento é difícil, mas a gente sempre torce para que dê tudo certo”. Ela encara essa situação de cabeça erguida e pensando no melhor para a filha. Sem focar no possível cansaço que o trabalho em dobro renderia, ela prefere dizer: “eu já fiz isso uma vez”.