A dança da prosperidade: como desenvolver seres humanos através da dança

Segundo dados da pesquisa realizada pelo programa de pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM) em 2017 em parceria com o Sistema Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE), o número de mulheres empreendedoras no Brasil, em 2017, era de 7,9 milhões.
Hoje estreia a série de reportagens: “Nas Mãos Delas”. Quinzenalmente, apresentaremos a história de sucesso de uma empresária da cidade. Além de prestigiar a economia local, nosso objetivo é também exaltar o empoderamento das mulheres que conduzem seus negócios. É importante destacar que esta série de reportagens não possui nenhum tipo de patrocínio ou incentivo.

Luciane Bento tem 44 anos e é funcionária pública na rede municipal de Cachoeirinha. Professora há 24 anos, hoje ela tem uma escola de dança no município e é idealizadora de projetos na área de educação, inclusão de crianças com deficiência e valorização da cultura negra.

A Lu, como é conhecida, lembra que teve seu primeiro contato com a questão da negritude durante um estágio em Porto Alegre. Lá, ela conheceu o grupo Semba, fundado pelo escritor Oliveira Silveira. Até hoje, a professora lembra quão baixa era sua autoestima antes de entrar no projeto. A partir do primeiro contato com a questão da mulher negra, Luciane não parou mais de pesquisar a temática do racismo, do empoderamento da população negra e da equidade entre as etnias. Professora em escolas periféricas de Cachoeirinha, Luciane ainda nota como a falta de referência na vida dos seus alunos impacta na visão de mundo de cada um deles. Por isso, ela percebe como obrigação de todo educador a exposição de diferentes culturas, realidades e perspectivas.

“O que eu aprendi na escola? Que os negros eram escravos, que os negros sofriam, mas ninguém me ensinou que na África existiam reis e rainhas. Nós [os negros] somos referência enquanto conhecimento humano. Toda a contribuição dos africanos no Brasil não é valorizada.” – Luciane Bento

A professora se orgulha em saber que graças às suas aulas ela conseguiu mudar o presente e o futuro de muitos estudantes. Hoje ela encontra na rua antigos alunos que assumem que, graças aos encontros do grupo de dança, eles ficaram longe das “más influências”.

A necessidade de engajamento humano

Atualmente, Luciane está a frente de dois grandes projetos. O primeiro chamado “Negras em foco” é consequência de uma ideia que ela teve. A professora sempre desejou exaltar a beleza da mulher negra em Cachoeirinha. Com a ajuda de dois amigos fotógrafos, Jonathan Terra e Luís Pedro Fraga, em 2017, ocorreram três edições do projeto: em junho, outubro e novembro, com cerca de 50 mulheres presentes. Após isso, ocorreu a exposição das fotografias no show alusivo ao aniversário de 52 anos de Cachoeirinha no Parcão. Segundo Luciane, a ideia agora é expandir esse projeto para homens e crianças. “Queremos toda a família envolvida e se empoderando”, afirma a professora.

Outro projeto, ainda sem nome, que está sendo desenvolvido, tem como objetivo promover o encontro entre a dança e as crianças com alguma deficiência. O projeto contará com a parceria entre a escola de dança e outros profissionais, como psicólogos, assistentes sociais e professores.

Luciane Bento é responsável por projetos relacionados à educação, à inclusão de crianças com deficiência e à valorização da cultura negra. (Imagem: Acervo Pessoal)

Como conta, desde o princípio, Luciane teve mulheres inspiradoras ao seu redor. Sua mãe criou seis filhos sozinha, e hoje, mais debilitada pela idade, demonstra ser uma guerreira. Outra inspiração é Ana Bento, sua irmã.

Empreendedorismo feminino em Cachoeirinha

Mesmo trabalhando com dança há muito tempo, foi só aos 32 anos que Luciane Bento cursou a faculdade em dança, uma vez que, como conta, não queria fazer faculdade de educação física. Fez, então, um curso de tecnóloga em dança. Nesse período, a empresária sentiu a necessidade de ter um espaço próprio para trabalhar. Uma colega de curso sugeriu que ela abrisse um espaço de dança em Cachoeirinha. Assim, nasceu a Criativus Centro de Dança (R. Guarani, 204 – Vila Imbuí). Com ajuda financeira da irmã Ana Bento, Luciane iniciou os trabalhos na escola. No início, teve um pouco de dificuldade em escolher como chamaria seu espaço. Então, pediu que o nome viesse através de um sonho. O sonho veio e trouxe a palavra criatividade. Luciane, então, resolveu adaptar para Criativus.

Há 11 anos no mercado, a Criativus oferece aula de nove danças diferentes, entre elas, k-pop, zumba e dança de salão. Segundo Luciane, a maior dificuldade é a questão financeira para a manutenção do espaço. No entanto, as vantagens são maiores e acabam incentivando a continuar. “Durante todos esses anos conheci pessoas que superaram doenças, melhoraram sua coordenação motora e se mantiveram firmes diante dos desafios da vida graças à dança”, afirma a professora.